Medicina estética muda estratégia e transforma médicos formadores de opinião em peça-chave para novos lançamentos

Grandes congressos internacionais mostram como ciência, educação médica e relacionamento passaram a fazer parte da estratégia das empresas; profissionais especializados atuam na conexão entre indústria e prática clínica

São Paulo — O lançamento de uma nova tecnologia na medicina estética já não acontece apenas quando um produto chega às prateleiras de distribuidores ou aos consultórios médicos.

Em um mercado cada vez mais competitivo e científico, o processo começa muito antes.

Congressos internacionais, encontros com médicos formadores de opinião, treinamentos, advisory boards, visitas a fabricantes e experiências científicas passaram a fazer parte da estratégia utilizada pela indústria para apresentar novas tecnologias e construir credibilidade.

Os números dos principais encontros mundiais ajudam a dimensionar essa transformação.

O AMWC Monaco 2026 reuniu 17.688 participantes, incluindo mais de 13 mil delegados, 507 palestrantes e mais de 4 mil representantes da indústria.

Um dado chama especialmente a atenção: o Brasil apareceu como o país com maior representação entre os participantes do congresso.

O fenômeno ajuda a explicar por que médicos brasileiros, empresas e executivos especializados passaram a circular com maior frequência entre alguns dos principais centros internacionais da medicina estética.

O médico deixa de ser apenas o destinatário do lançamento

A transformação também mudou a relação entre indústria e profissionais de saúde.

Durante muito tempo, o modelo tradicional de marketing concentrava grande parte dos esforços na apresentação comercial de um produto depois que ele estava pronto para ser vendido.

Hoje, em diferentes projetos, médicos experientes são envolvidos muito antes.

São os chamados Key Opinion Leaders, ou KOLs: especialistas reconhecidos em determinadas áreas que participam de congressos, discussões científicas, treinamentos e avaliações de novas tecnologias.

A contribuição desses profissionais pode ajudar as empresas a compreender questões que uma análise puramente comercial dificilmente conseguiria responder.

Como aquela tecnologia se comporta na prática? Quais são as dúvidas dos médicos? Onde estão suas principais aplicações? Quais limitações precisam ser discutidas? Que tipo de treinamento será necessário?

Essas perguntas fizeram com que a educação médica passasse a ocupar uma posição muito mais estratégica dentro da medicina estética.

Congressos se transformaram em grandes centros de conexão

Essa mudança pode ser observada nos principais eventos internacionais.

Congressos como IMCAS e AMWC combinam atualmente programação científica, demonstrações, apresentações de novas tecnologias, workshops e espaços de interação entre médicos, pesquisadores e indústria.

O IMCAS Americas 2026, realizado em São Paulo, por exemplo, destacou em sua programação a participação de líderes de opinião brasileiros e internacionais, além de demonstrações práticas e tecnologias em processo de introdução no mercado.

Já o AMWC estrutura parte de sua programação justamente em torno de educação continuada, especialistas internacionais e discussão de inovações baseadas em evidências.

Isso faz desses congressos não apenas eventos científicos, mas pontos de encontro de um ecossistema global.

E é dentro desse ecossistema que surge um perfil profissional cada vez mais específico: o executivo capaz de transitar entre médicos, indústria, ciência e mercado.

Uma carreira construída nesse cruzamento

O executivo brasileiro Filipe Dilena construiu grande parte de sua trajetória profissional justamente nesse ambiente.

Há mais de 15 anos ligado ao mercado de medicina estética, Dilena participou de projetos envolvendo lançamentos, desenvolvimento de mercado, relacionamento com médicos e construção de estratégias para diferentes categorias de produtos.

Sua experiência inclui segmentos como bioestimuladores de colágeno, toxinas botulínicas, PDRN, fios de PDO, PRP e tecnologias relacionadas à medicina regenerativa.

Ao longo dessa trajetória, esteve envolvido em projetos relacionados à introdução e ao posicionamento de produtos como Elleva e Letybo, além de participar da introdução de um dos primeiros produtos comerciais baseados em PDRN no mercado brasileiro.

Mais recentemente, sua atuação passou a envolver de maneira crescente a aproximação entre médicos brasileiros e mercados internacionais.

O executivo que precisa entender o consultório

Para Dilena, uma das maiores mudanças da indústria foi perceber que estratégias de marketing para produtos médicos não podem ser construídas exclusivamente a partir de uma perspectiva comercial.

“O médico não pode aparecer apenas no final do processo para receber uma apresentação sobre um produto. Quando existe uma relação verdadeira com os especialistas, a indústria consegue entender a prática clínica, as necessidades do profissional e até questões que precisam ser resolvidas antes de um lançamento.”

Essa proximidade exige do executivo um repertório diferente daquele encontrado no marketing tradicional.

Ele não precisa ocupar o lugar do médico ou do pesquisador, mas precisa compreender suficientemente o ambiente científico para conseguir estabelecer uma conversa entre diferentes áreas.

Na prática, isso significa entender o produto, acompanhar tendências, conhecer o posicionamento dos concorrentes, compreender as necessidades dos médicos e traduzir essas informações em uma estratégia de mercado.

Do lançamento ao desenvolvimento de uma categoria

Existe ainda uma diferença importante entre lançar um produto e desenvolver uma categoria.

Quando uma tecnologia já é conhecida, a empresa disputa principalmente preferência e participação de mercado.

Quando o conceito ainda é novo, existe um desafio anterior: o mercado precisa compreender aquilo que está sendo apresentado.

Isso aconteceu com diferentes categorias da medicina estética ao longo das últimas décadas.

Bioestimuladores, novas toxinas, tecnologias baseadas em energia e, mais recentemente, soluções ligadas à estética regenerativa precisaram passar por processos de educação e construção de mercado.

Para Dilena, essa etapa é uma das mais interessantes do trabalho.

“Quando uma categoria é nova, você não está simplesmente disputando uma venda. Primeiro precisa construir conhecimento. O médico precisa entender por que aquela tecnologia existe, qual problema ela pretende resolver e onde estão seus diferenciais.”

PDRN mostra como tendências podem atravessar continentes

O crescimento recente do interesse por PDRN e polinucleotídeos é um exemplo desse movimento.

Tecnologias que durante anos estiveram fortemente associadas ao mercado asiático passaram a despertar atenção internacional e ganhar espaço nas discussões sobre qualidade da pele e medicina regenerativa.

Dilena acompanhou esse segmento antes da atual popularização da categoria.

A experiência permitiu ao executivo observar um fenômeno recorrente dentro da medicina estética: o intervalo entre o surgimento de uma tecnologia, sua validação, a construção de conhecimento e sua transformação em tendência comercial.

Esse intervalo pode representar anos.

E é justamente nele que indústria, pesquisadores, médicos e profissionais responsáveis pelo desenvolvimento de mercado precisam trabalhar juntos.

Brasil ocupa posição de destaque nos congressos

A participação brasileira nesse ecossistema internacional também aumentou.

O fato de o Brasil ter aparecido na primeira posição entre os países representados no AMWC Monaco 2026 é um sinal da importância que os profissionais brasileiros adquiriram no circuito mundial da especialidade.

O mesmo movimento pode ser observado em congressos realizados na Ásia.

Em 2026, Dilena foi contratado por uma empresa sul-coreana do setor para coordenar a participação de médicos brasileiros no AMWC Korea.

O projeto envolveu justamente uma área que vem se tornando estratégica: conectar médicos brasileiros a fabricantes e profissionais de mercados que estão desenvolvendo algumas das tecnologias que poderão ganhar espaço nos próximos anos.

O executivo também acompanha profissionais brasileiros em encontros como IMCAS Paris, AMWC Mônaco, AMWC Dubai, Korea Derma e AMWC Korea.

Por que a Ásia ganhou tanta importância?

A expansão das relações com a Coreia do Sul não acontece por acaso.

O país desenvolveu uma indústria expressiva relacionada a beleza, dermatologia, dispositivos médicos e medicina estética.

Para profissionais que trabalham com desenvolvimento de mercado, estar próximo desse ambiente permite acompanhar tendências antes que elas estejam amplamente disseminadas em outros países.

Mas conhecer uma novidade primeiro não é suficiente.

O desafio é conseguir avaliar quais tecnologias possuem potencial real para atravessar fronteiras e encontrar espaço em mercados com características regulatórias, médicas e comerciais diferentes.

“Nem tudo que funciona comercialmente na Ásia necessariamente terá o mesmo caminho no Brasil. É preciso entender ciência, regulação, comportamento médico e características do mercado. Essa leitura é tão importante quanto encontrar uma novidade.”

O risco de transformar inovação em apenas uma tendência

A velocidade das redes sociais criou ainda outro desafio para a indústria.

Uma tecnologia apresentada em Seul, Paris ou Mônaco pode aparecer nas redes sociais de médicos e pacientes do outro lado do mundo praticamente no mesmo dia.

Isso acelera a curiosidade do mercado, mas também pode criar expectativas antes que todas as informações científicas e regulatórias estejam disponíveis.

Por essa razão, grandes congressos internacionais vêm reforçando discussões sobre evidência, segurança, complicações e educação continuada.

A inovação precisa chegar acompanhada de informação.

E isso aumenta a responsabilidade tanto dos médicos quanto das empresas responsáveis pela introdução dessas tecnologias.

Relacionamento não substitui ciência

O crescimento da importância dos KOLs também exige cuidados.

O fato de um médico conhecido utilizar ou apresentar determinada tecnologia não substitui estudos científicos nem os processos regulatórios necessários.

Da mesma maneira, relacionamento entre especialistas e indústria precisa ser conduzido com transparência.

O próprio amadurecimento do setor fez com que segurança, evidência e gestão de complicações ganhassem mais espaço nos grandes congressos.

O desafio atual é equilibrar dois mundos que precisam coexistir: a velocidade da inovação e o rigor da medicina.

Um novo perfil de executivo

É nesse cenário que carreiras como a de Filipe Dilena ajudam a mostrar uma transformação menos visível da medicina estética.

Por trás de um novo produto existem profissionais responsáveis por estudar mercados, identificar especialistas, construir projetos educacionais, organizar experiências científicas, estabelecer relações com fabricantes e desenvolver estratégias de posicionamento.

É um trabalho que normalmente acontece muito antes de o consumidor ouvir falar de determinada marca.

E, quanto mais técnica se torna a medicina estética, maior tende a ser a necessidade de profissionais que consigam conversar com os diferentes lados desse ecossistema.

Dilena define essa função como uma espécie de ponte.

“A indústria possui uma visão, o médico possui outra e o mercado apresenta uma terceira realidade. Meu trabalho sempre esteve muito relacionado a conectar esses pontos e construir um caminho que faça sentido para todos.”

O lançamento começa muito antes da venda

Os grandes congressos de 2026 deixam evidente que a medicina estética entrou em uma fase na qual ciência, educação e estratégia comercial estão cada vez mais interligadas.

O AMWC Monaco reuniu mais de 17 mil participantes. O IMCAS mantém uma programação internacional fortemente baseada em especialistas, demonstrações e novas tecnologias. E médicos brasileiros aparecem em posição cada vez mais relevante nesse circuito.

Nesse ambiente, o lançamento de um produto deixou de ser um acontecimento isolado.

Ele pode começar meses — e algumas vezes anos — antes de sua comercialização, quando uma empresa identifica uma tecnologia, procura especialistas, acompanha evidências e começa a preparar o mercado.

A trajetória de Filipe Dilena acompanha justamente essa transformação.

Depois de mais de 15 anos trabalhando entre lançamentos, médicos formadores de opinião e indústria, sua atuação passou a alcançar também os centros internacionais onde parte das novas tendências começa a ser discutida.

Em uma medicina estética cada vez mais globalizada, entender quem conecta a inovação ao mercado ajuda também a compreender como uma tendência internacional acaba chegando ao consultório brasileiro.

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By Portal Globo

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